A Cara do Rio, livro de Ricardo Amaral em parceria com Raquel Oguri, faz colunista Maria Lúcia Dahl lembrar do Rio Antigo.

A obra é um roteiro delicioso por costumes, festas, gastronomia, lazer, arquitetura, cultura, comunicação, política e economia. Mostra o Rio de São Sebastião pelos acontecimentos curiosos, pelos personagens peculiares, pelos bastidores. Com um texto saboroso e humor, reconta o que já é conhecido, resgata pequenas grandes histórias que andavam perdidas e constrói, assim, um inusitado painel, mostrando a cara do Rio.

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Através do portal do Correio do Brasil, Maria Lúcia conta o seu mergulho nessa viagem! Entre seu texto, imagens das páginas do livro, que é uma carta de amor ao Rio de Janeiro, para que, assim como ela, possamos continuar viajando pelA Cara do Rio.

Há muito tempo que não mergulhava tão fundo num livro que uma amiga me emprestou e que nunca mais parei de ler, praticamente, desde que ela me deu, no fim de semana, em Petrópolis.

O livro se chama “ A cara do Rio” e é escrito pelo Ricardo Amaral.
Sabia que ia viajar naquele passado dos anos 60,70,80, com a turma de Ipanema, voltar a jantar no Antonio´s, no Hipopótamus, em Copacabana , na Fiorentina, por exemplo, encontrar com o Cinema Novo, falar com os diretores, das viagens que faríamos pelo Nordeste, como a minha participação em “Menino de Engenho” de José Lins do Rego, dirigido por Walter Lima Jr, e produzido pelo Glauber , onde fiquei amiga da equipe e fomos viajar por aquelas bandas conhecendo o povo nordestino, seus costumes, a comida e a maneira divertida de se comunicar.

Para mim, o Nordeste foi uma surpresa mais do que agradável com seus cenários maravilhosos de mares, rios, florestas e arquitetura impecável do tempo da Família Real.

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E por falar nela, fiquei ciente, através do livro, de fatos hilariantes, quando os reis e príncipes transavam com todas as mulheres brasileiras, desde as escravas até as nobres enquanto suas esposas fumavam maconha, como Dona Carlota Joaquina, por exemplo, que vivia apertando unzinho , que teriam chegado junto com Pedro Álvares Cabral e eram vendidos como fumo de índios, assim como levavam o ouro daqui para ser vendido na Europa, no iniciozinho do País do Futuro que é o nosso Brasil.

Gente, pensar que a cara do Rio sempre foi essa, cheia de roubos e amantes muito bem escondidos nos armários, com um baseadinho pra aliviar, me fez dar gargalhadas com o livro, que logo , logo, me levaria aos anos dourados e rebeldes da minha vida, voltando às turmas do Antonio´s, por exemplo, com Tom, Vinícius, Tarso de Castro, Roniquito e muitos outros que davam gargalhadas entre os milhares de uísques que tomavam, olhando pra cada moça que entrava e dizendo: “Jaco, Jaco, Jaco…” o que queria dizer:” já comí “ enquanto outros diziam “ já bro, já bro, já bro”, o que queria dizer: “Já brochei!” ditas por uma galera hilária que falava barbaridades mas cheias de humor!

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Voltei a dançar cha-cha-cha no Black Horse do Hubert de Castejá, com o Bob Zagury e o Eric Waechter, voltei também ao Jirau onde se dançava mais tranquilamente e ao Hipopótamus onde se batia altos papos com os amigos alem de dançar também, voltei aos shows do Miele e Tuca no Beco da Fome.

O livro me levou também de volta ao Bar do Country, quando era pequena e adorava ouvir o Bené Nunes tocar piano entre os uísques do meu pai e “ao fundo Homero Lopes” , falado sempre nas colunas do Ibrahim.
E entrando na infância fui também parar no Balneário da Urca mergulhando em suas águas sem ondas.

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Então o livro e a juventude acabaram, o que já era previsto, e tive de abrir mão daquela felicidade estonteante que também passava pelo surf do Arpoador , frequentado por Arduino e Marina Colassanti, entre vários outros surfistas que faziam as meninas suspirarem com seus cabelos e pranchas.​

Passei também pelas passeatas de 68, quando todos nos uníamos contra a ditadura, gritando:
“O povo, unido, jamais será vencido!”, até voltar a este momento difícil que estamos vivendo, a atual cara do Rio, onde ninguém se une mais em torno de nenhum objetivo e, todo mundo virou selfie , cometendo roubos, estupros e assassinatos.

Então ponho a TV fora de qualquer jornal e continuo viajando pela cara do Rio e a minha cara ao som de Roberto e Erasmo que vi na TV Viva, por acaso, e que também não deixam de ser a cara do Rio, embora de uma maneira diferente.