RICARDO AMARAL E A FACULDADE SÉRGIO PORTO DE CARIOQUISMO

 

São Paulo, bairro das Perdizes, primórdios da televisão! Anos 50, eu de calça curta assistia atento ao programa “O Céu é o Limite”, apresentado por Aurélio Campos, na TV Tupi. No Rio quem o apresentava era J. Silvestre, já que naquele momento não havia nem video tape, nem satélite.

A cada semana que assistia aquele que respondia sobre música popular brasileira, ficava mais encantado. Era o jornalista Sérgio Porto, que também assinava Stanislaw Ponte Preta. A cada aparição dava aulas de carioquismo. Contava histórias e respondia sempre com um humor especial, descontração, uma certa dose de cinismo e uma desenvoltura exemplar. Um sedutor! Alto e boa pinta chegou ao final do programa e “papou” um bruta prêmio, que humildemente disse que iria doar a três meninas pobres, Gisella, Angela e Solange.  Houve comoção! Perguntado quem eram, declarou tratar-se de suas filhas. A comoção foi ainda maior! Hilariante!

Neste momento, eu com 11 ou 12 anos de idade decidi que um dia iria morar no Rio. Queria me integrar a esse espírito. Isso aconteceu naturalmente. Em pouco tempo, com apenas 17 anos, fiquei amigo do Fifuca, seu irmão. Personagem incrível, carioquíssimo, que lembrava muito Sergio e em função de sua paixão pela paulista… vivia em São Paulo. Este convívio foi uma espécie de pré-vestibular para o carioquismo. Alguns anos depois já dividia uma página de jornal, na Última Hora com Sergio Porto e, não muito mais tarde, me casei com uma prima-irmã de sua mulher Dirce, mãe das três meninas pobres.

A CONVIVÊNCIA COM SERGIO PORTO

Nossa convivência era intensa via Samuel Wainer, nosso patrão comum. Confesso que era deslumbrado pelo meu então colega de redação. Ele simbolizava o melhor do humor carioca. Um belo dia, na boite Black Horse, Sergio me salvou. Fortão, me defendeu das garras do famoso boêmio Cesar Tedim, que estava furioso comigo em conseqüência de uma nota que tinha publicado.

Ainda da memória do convívio não posso esquecer que poucos anos depois, acho que 1963, participei ao seu lado do Jornal de Vanguarda, do Fernando Barbosa Lima, na TV Excelsior. Quando conheci também Nelson Rodrigues, Millôr Fernandes, Fausto Wolff, Luiz Bonfá, Sargentelli, Borjalo e tantas outras estrelas da cidade. Comer na madrugada ouvindo esse time foi com certeza meu doutorado de Rio de Janeiro!

Não esqueço também ele me chamando sempre, ao vivo e em sua coluna de “Padre sem batina”. Cismou que eu tinha cara de padre. Imagina! Foi assim que também ele me definiu ao meu sogro, o querido Alfredinho Amaral, quando indagado sobre quem eu era. O velho Alfredinho, tadinho, entendeu que era coisa boa, afinal padre é padre. E consentiu (naquela época tinha disso) que eu casasse com a filha Gisella.

Ainda no jogo das coincidências, Alfredinho tinha sido chefe do Sergio e do famoso cartunista Jaguar no Banco do Brasil. Incrível!  Sergio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, alto funcionário do BB! Sério e trabalhador! Aliás, nunca ninguém fez tanto o Brasil rir às custas de tanto suor.

FEBEAPÁ

Trabalhava muito, incessantemente. Escrevia coluna diária, revista semanal (Cruzeiro e depois Manchete), programas de rádio, atuava em teatro e depois TV e escrevia livros, muitos livros. Seu maior best-seller foi a série Febeapá – Festival de Besteiras Que Assola O País. Quem tiver oportunidade de comprar num sebo vai se deliciar ao verificar que o Brasil é o mesmo, que o Rio é o mesmo. Mudaram só nomes e modernidades.

     

Sérgio era um grande crítico da ditadura militar. Com um senso de humor refinado, uma dose interessante de sarcasmo, fez críticas sutis e divertidas ao sistema de governo, à moral de sua época e aos costumes burgueses. É inesquecível quando noticiou a prisão de Sófocles, o dramaturgo grego, pelos militares, que acusavam suas peças de apresentar conteúdo subversivo.

SÉRGIO PORTO POR ELE MESMO

Sergio personificou o espirito do Rio. Ele foi o mais carioca dos cariocas! E nada melhor que ele mesmo para se definir:

Auto-retrato do artista quando não tão jovem:
ATIVIDADE PROFISSIONAL: Jornalista, radialista, televisista (o termo ainda não existe, mas a atividade dizem que sim), teatrólogo ora em recesso, humorista, publicista e bancário.
OUTRAS ATIVIDADES: Marido, pescador, colecionador de discos (só samba do bom e jazz tocado por negro, além de clássicos), ex-atleta, hoje cardíaco. Mania de limpar coisas tais como livros, discos, objetos de metal e cachimbos.
PRINCIPAIS MOTIVAÇÕES: Mulher.
QUALIDADES PARADOXAIS: Boêmio que adora ficar em casa, irreverente que revê o que escreve, humorista a sério.
PONTOS VULNERÁVEIS: Completa incapacidade para se deixar arrebatar por política. Jamais teve opinião formada sobre qualquer figurão da vida pública, quer nacional, quer estrangeira.
ÓDIOS INCONFESSOS: Puxa-saco, militar metido a machão, burro metido a sabido e, principalmente, racista.
PANACÉIAS CASEIRAS: Quando dói do umbigo para baixo: Elixir Paregórico. Do umbigo para cima: aspirina.
SUPERTIÇÕES INVENCÍVEIS: Nenhuma, a não ser em véspera de decisão de Copa do Mundo. Nessas ocasiões comparativamente qualquer pai-de-santo é um simples cético.
TENTAÇÕES IRRESISTÍVEIS: Passear na chuva, rir em horas impróprias, dizer ao ouvido de mulher besta que ela não é tão boa quanto pensa.
MEDOS ABSURDOS: Qualquer inseto taludinho (de barata pra cima).
ORGULHO SECRETO: Faz ovo estrelado como Pelé faz gol. Aliás, é um bom cozinheiro no setor mais difícil da culinária: o trivial.
Assinado:  Sérgio Porto, agosto de 1963.

STANISLAW PONTE PRETA

Nosso carioquíssimo Sérgio Marcus Rangel Porto nasceu em 11 de janeiro de 1923, ano em que foi inaugurado o Copacabana Palace. Depois da passagem pelo Banco do Brasil tornou-se, no final dos anos 40, o compositor, escritor e radialista brasileiro que ficou conhecido como Stanislaw Ponte Preta, seu pseudônimo, ou simplesmente Lalau. Alem da Última Hora, passou pelo Diário Carioca, Tribuna da Imprensa, revista Manchete e revista Sombra. Rádios? Todas as da época, tendo sido grande redator de humor

Seu pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, foi criado por Thomas Santa Rosa, ilustrador famoso da época, que inspirou-se no  personagem de textos satíricos, crônicas e críticas  Serafim Ponte Grande,  criado pelo escritor Oswald de Andrade, em livro com o mesmo nome.

Além da criação do personagem, Sérgio Porto foi um grande apaixonado por música, tendo contribuído com jornais e revistas sobre o assunto, fazendo coberturas de shows e, até mesmo, compondo. Ele é o compositor da canção “Samba do Crioulo Doido”. Foi dele a  redescoberta de Cartola, em 1957, que havia desaparecido e trabalhava como lavador de carros e zelador de um prédio em Ipanema. Sérgio, apaixonado por sua obra ajudou o grande músico a retomar sua carreira.

AS CERTINHAS DO LALAU

No final os anos 50, quando o colunismo social lançado por Maneco Muller (Jacinto de Thormes), outro colega nosso de jornal, tinha como tradição apresentar anualmente as “10 Mais Elegantes” do país, Sergio Porto repicou. Criou e produziu “As Certinhas do Lalau”, um concurso de beleza disputado entre as vedetes do teatro rebolado mais famosas na época. Neste concurso, em que ele era o único jurado, com o intuito sempre de fazer justiça, figuravam nomes como Carmen Verônica (estonteante!), Maria Pompeo, Irma Alvarez, Dorinha Duval, Eloina, Gina Le Feu, Norma Bengell, Diana Morel, Anilza Leoni e Rose Rondelli. Esta última por quem se apaixonou e saiu de casa. Rose, linda mulher, foi uma das musas do humor carioca, tanto assim que casou depois com Chico Anysio, e teve com ele dois filhos. Nesse concurso, sempre com escolhas primorosas, brincava: – Como sou cego em matéria de mulher (!!!) me dou ao luxo de julgar em braile!

OS CUPINCHAS

Como trabalhava muito, era o rei dos cupinchas!  Uns jornalistas mais letrados, outros meio boys de luxo. Um dos primeiros, lá na Radio Mayrink Veiga, era conhecido pelo apelido Pastor porque era crente até o último fio de cabelo. Desses que querem levar ovelhas, perdidas ou não, para a sua igreja. Um dia, o coitado do Pastor apareceu com um formulário religioso pro pessoal preencher. Imagine na mão de quem foi parar o tal formulário? Sérgio Porto, implacável, ao ver o primeiro item, não resistiu. Ao ler “nome do membro” Sérgio não vacilou e escreveu em letras garrafais “CARALHO”.

Um segundo maravilhoso cupincha foi o Repórter Eça. Seu sobrenome era Eça e como ele tinha trabalhado como redator do Repórter Esso, na Tupi, nosso Sergio o batizou com a alcunha de Repórter Eça e assim ficou. Este incorporou de tal forma o espírito do chefe que conseguia escrever igualzinho a ele. O Samuel Wainer, dono do Última Hora, incomodado com a participação do colaborador, cobrou sua ausência. Fizeram uma aposta. Em dois meses de colunas diárias Samuel não acertou uma coluna escrita pelo Repórter Eça! Eu fui testemunha. Fomos jantar no Antonio’s.

Ele tinha uma mania maravilhosa: a de ter sempre a mão o perfume Fleur de Rocaille. Era o perfume que 10 entre 10 mulheres dessa época adoravam. Sérgio tinha sempre pelo menos meia dúzia de prontidão em sua gaveta na redação. “Nunca se sabe”, dizia ele.

Sempre muito modesto, mas com seu maravilhoso e imbatível senso de humor,  se auto-intitulava “introdutor da grossura na filosofia humorística”. Nos dias de hoje, meu Deus!

AS CARIOCAS

Uma boa parcela de críticos avaliaram negativamente o filme As Cariocas, que Sergio escrevera. Em defesa de seu filme escreveu uma coluna, como sempre, muito bem elaborada  e no tom certo. Sua defesa pela comédia leve, sem grandes pretensões, é de uma atualidade impressionante. “… diante da reação da crítica paulista, percebi que as opiniões sobre cinema brasileiro são mais contraditórias do que aquele projeto de reforma agrária que dorme eternamente em berço esplêndido nas gavetas daqueles castelos mal assombrados de Brasília. (…) No Rio, houve quem recriminasse o primeiro episódio de As Cariocas por ser baseado em uma velha anedota. E daí? Ninguém pretendeu mais do que isso: contar uma velha anedota, mas com boa dose de humor, um elenco honesto, em ambiente agradável aos olhos, enfim, para distrair o público que abomina televisão mas não tem saco para assistir todos os dias a Ivan, o Terrível. (…) Pois o Jornal do Brasil recomendou o filme a seus leitores informando: ‘São três histórias, a primeira e a terceira tiradas de originais de Stanislaw Ponte Preta, benvindo ao cinema.’ Sem esnobismo, é o que os italianos também fazem no gênero. E essa era a intenção. No dia em que o cinema nacional exportar a ‘comédia carioca’, vai faturar mais que a Máfia, tá bem?”

O ESPIRITUOSO

Sergio deixou seu espírito impregnado nessa cidade.  Tão alegre, tão divertido e tão sério. No seu humor sempre cheio de mulheres gostosas (põe gostosa nisso!) havia uma critica bem humorada, muitas vezes ingênua,  mas sempre espirituosa:

– Tenho dó de quem se leva a sério!
– Exclusividade? Só cavalo, escova de dente e mulher de casa!
– Mais assanhado do que bode velho no cercado das cabritas.
– Tinha tal pavor de avião que se sentia mal só de ver uma aeromoça.
– Mulher e livro, emprestou, volta estragado.
– Televisão é máquina de fazer doido.
– Mais inchado do que cabeça de botafoguense
– Mais suado do que o marcador de Pelé
– Mais duro do que nádega de estátua
– Mais feia do que mudança de pobre.
– Mais murcho do que boca de velha.

Em seu Tratado Mulherologia (uma doutrina, uma diversão), ele definiu a ciência: “… direi que é arte de admirar a mulher, respeitando-a sempre, procurando exaltá-la sem hesitar, isto é, sem hesitação exaltar seu êxito. Acima de tudo, o mulherólogo deve sentir-se um conquistado e não um conquistador. Pobre do cretino que sai espalhando o que fez com uma mulher, vangloriando-se de uma glória que não é sua…”

Ele morreu muito, mas muito cedo, aos 45 anos, por problemas cardíacos. Suas últimas palavras ditas à sua última companheira, ao sofrer o derradeiro infarto, no dia 29 de setembro de 1968, foram:
– Tunica, eu tô apagando…