Por Laura Souza

O Rio de Janeiro é uma cidade de muitos cantos e encantos. E o mais fascinante disso é a vida que existe em cada local, que se mistura com a arquitetura, com as pessoas que frequentam, com a história, com a rotina, com cada esquina que conta um pouco do que se passa e do que já passou por ali. A memória de uma cidade está em sua geografia, em suas ruas e seus habitantes.

E é isso que faz com que os locais sejam mais “vivos” ou mais “mortos” – expressão comum na nossa fala do dia a dia. A Gamboa, tema de abertura da série “Cantos do Rio”, já foi palco de muita vida, se apagou e hoje está retomando seu lugar no coração dos cariocas e turistas que passeiam pelo Rio.

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Vista da Gamboa em 1882 (óleo sobre tela de Hipólito Caron)

O nome do bairro foi dado em razão da pesca característica que lá era feita: com a armadilha de mesmo nome, na enseada rasa, perto dos trapiches do barão da Gamboa. Mas existem controvérsias, como sempre! Algumas fontes dizem que a palavra “gamboa” significa tanto “marmelo” quanto um remanso no leito dos rios, dando a impressão de um lago.

Seja como for, na Gamboa do passado existia uma enseada, encostas cobertas de árvores e o marulhar das ondas. Porém, o que compreendia exatamente a área da Gamboa? As exatas fronteiras entre o bairro, a Saúde e o Santo Cristo – mais ou menos entre o Valongo e a Zona Portuária – se perdem em um confuso labirinto de ruas, trilhos e aterros entre os morros próximos. A própria praça do Santo Cristo passou a ter esse nome após a construção da igreja de Santo Cristo dos Milagres, em 1850, antes disso se chamava praça da Gamboa.

Historicamente, a Gamboa começou a ser mais densamente ocupada por conta da vinda da Família Real Portuguesa para o Rio, em 1808. A família trouxe um contingente de 15 mil nobres, lacaios, frades, músicos, cabeleireiros etc. E foi necessário arranjar moradia para toda essa gente! Pela beleza de sua paisagem e sua proximidade do Centro, a Gamboa foi a escolhida.

Em 1830 veio o crescimento da produção cafeeira e toda a região se encheu de trapiches, cais e das primeiras indústrias que apareciam. Em 1890, veio a construção monumental do Moinho Fluminense, o que ajudou a caracterizar este século como o apogeu da Gamboa.

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Moinho Fluminense no início do séc. XX

Daí para frente foram obras e mais obras, transformações para o bem da coletividade. Os aterros, as obras do porto, os enormes armazéns, as linhas férreas, o túnel, a avenida Presidente Vargas, os viadutos, a migração interna,… e por aí vai. Sobraram os antigos casarões para contar a história, como testemunhas das mudanças. E é nesse ponto que passado e presente se unem: as ruas antigas, quase todas curvas, se encontram com as modernas, construídas sobre aterros, retilíneas. Na Sacadura Cabral, por exemplo, é fácil perceber que apenas de um lado encontram-se casas antigas, pois do outro lado havia o mar.

Com a abolição da escravatura, toda a área foi amplamente ocupada pela população negra, majoritariamente empregada na estiva. A atividade era motivo de orgulho para os trabalhadores, que renomearam a praça da Redenção para praça dos Estivadores – nome que continua sendo utilizado até hoje.

Muito samba passou a ser ouvido nas calçadas da Gamboa. Hoje, essa herança é representada por vários locais. A casa Trapiche Gamboa se intitula “um refúgio para a mais autêntica forma de música brasileira, o samba de roda”. O samba da Pedra do Sal já é tradição, samba de raiz e sem microfones nos instrumentos todas às segundas, aos pés do Morro da Conceição. Na cadência democrática, o Samba de Lei anima o mesmo local toda sexta-feira.

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A Gamboa está aos poucos voltando a ser destino dos cariocas e turistas da cidade. Após embarcar na revitalização do cais do Porto, através do projeto Porto Maravilha, da Prefeitura, o bairro voltou a ser um berço da boemia e local de efervescência cultural.

E os estabelecimentos locais contribuem. O Museu de Arte do Rio (MAR), por exemplo, põe a Zona Portuária no topo da diversão carioca. E o que dizer do Galpão Gamboa? O espaço conta com diversas atividades, como teatro e música, e ambiciona abrir possibilidades para frequentadores da cidade inteira.

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Museu de Arte do Rio (MAR)

Para aproveitar tudo o que a região da Gamboa e adjacências oferece e ainda respirar um pouco mais da história que pulsa em cada rua do local, o Rio Book listou alguns dos estabelecimentos que não podem ficar de fora do tour de samba, gastronomia e memória.

ANGU DO GOMES
O já famoso bar oferece deliciosos petiscos e pratos. O angu e o bolinho de feijoada pedem uma cervejinha para acompanhar.
Rua Sacadura Cabral, 75 – Saúde
2233-4561
angudogomes.com.br

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Bolinho de angu do Angu do Gomes.

ARMAZÉM 04
Gastronomia de boteco, com cervejas artesanais e mesas do lado de fora. Tem como ser mais descontraído e gostoso?
Largo São Francisco da Prainha, 4 – Saúde
2516-8375

BAR GRACIOSO
Eles dizem que reiventam a cozinha nacional há mais de 60 anos. A casa boêmia serve pratos e petiscos, cervejas especiais e cachaças artesanais, tudo embalado por muita música boa ao vivo!
Rua Sacadura Cabral, 97 – Saúde
2263-5028
www.graciosobar.com.br

GALPÃO GAMBOA
Um espaço para a experiência da liberdade cultural, das trocas afetivas que a convivência social proporciona. Lá você encontra uma série de atividades culturais, como shows de dança, teatro e música.
Rua da Gamboa, 279 – Gamboa
98460-1350 / 98460-1351
www.galpaogamboa.com.br

TRAPICHE GAMBOA
O reduto do samba de roda. O sobrado que conserva a arquitetura de 1857 está situado entre a Pedra do Sal, a Ladeira do Valongo e o Largo do Prainha. O Trapiche Gamboa não se define como “casa de shows” ou “boate”. Com a originalidade dando o tom maior, eles se descrevem como um despretensioso bar, onde gente de bom gosto encontra a cerveja mais gelada, a caipirinha mais perfeita e o tira gosto mais esperto, ao som do mais puro e verdadeiro samba carioca.
Rua Sacadura Cabral, 155 – Gamboa
2516-0868
www.trapichegamboa.com

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Salão do Trapiche Gamboa

 

RODA DE SAMBA DA PEDRA DO SAL
Fundada em 2009, a Roda de Samba da Pedra do Sal tem o objetivo de continuar a levar o “samba de verdade” para quem ainda não conhece e para os amantes desse estilo que é, na realidade, um patrimônio cultural brasileiro. O samba “cru” e rico em poesia é o que faz os sambistas se reunirem. E é por amor ao samba que todas as segundas-feiras, às 19h, eles estão lá, fazendo o seu já conhecido samba de raiz.
Rua Argemiro Bulcão, 38 – Gamboa
facebook.com/rodadesambapedradosal/

SAMBA DE LEI/SAMBA DE SEXTA NA PEDRA DO SAL
O samba que acontece todas as sextas-feiras na Pedra do Sal reúne um público fiel. No meio de todo mundo, ficam os integrantes cantando e tocando os clássicos do samba. Os músicos começam às 19h e tocam sem parar até 0h. Um verdadeiro encontro de música, cultura e amizade.
Rua Argemiro Bulcão, 38 – Gamboa
97263-3628
facebook.com/sambadapedrasexta

MUSEU DE ARTE DO RIO (MAR)
Instalado na Praça Mauá, foi inaugurado em 1 de março de 2013. De lá para cá, o MAR – para os mais íntimos – vem promovendo o que eles chamam de “uma leitura transversal da história da cidade, seu tecido social, sua vida simbólica, conflitos, contradições, desafios e expectativas sociais”. As exposições do museu sempre buscam unir dimensões históricas e contemporâneas da arte por meio de mostras de longa e curta duração, de âmbito nacional e internacional.
Praça Mauá, 5, Centro.
www.museudeartedorio.org.br
3031 2741

Fonte: Livro “Cantos do Rio – Gamboa”, por Alexei Bueno. Editora Relume Dumará, 2002.

Fotos: Divulgação.