Luiz Alfredo Garcia-Roza encerrou uma bem-sucedida carreira acadêmica, aos 60 anos, para se aventurar na ficção policial. Carioca, com formação em filosofia e psicologia, lecionava na UFRJ e suas aulas eram disputadíssimas. Neste tempo publicou oito livros sobre psicanálise e filosofia.

O sucesso o acompanhou na nova empreitada e seu romance de estreia, O silêncio da chuva, conquistou os dois maiores prêmios da literatura nacional, o Nestlé e o Jabuti. E o delegado Espinosa, personagem principal de quase todos seus livros de ficção, não parou mais.

Espinosa mora em Copacabana e mostra ao leitor um Rio de Janeiro peculiar, narrado pelo ponto de vista de um delegado ético, solitário e introspectivo, que devora livros (guardados em uma biblioteca sem estante) e faz longas caminhadas pela cidade. Nos 11 livros, todos publicados pela Companhia das Letras, o personagem descortina as mudanças do Rio.

Para descrever minuciosamente as caminhadas do delegado, Luiz Alfredo tem na parede de seu escritório um imenso mapa de Copacabana, presente da prefeitura. Ali ele encontra cada ruazinha do bairro e a localização exata dos prédios. E gente de todo o mundo acompanha esses passeios: as aventuras de Espinosa já foram traduzidas para mais de 10 idiomas.

Em 2015 o delegado ganhou cara pelas mãos do diretor José Henrique Fonseca na minissérie “Romance policial: Espinosa”, no canal GNT. E está em produção a versão cinematográfica de Vento Sudoeste, o terceiro livro.

12555 - Na multidão

Destacamos um trecho de Na multidão, de 2007, com uma instigante caminhada de um suspeito por Copacabana. Com direito a parada na galeria Menescal para delícias árabes:

“(…) Escolha acertada. Dez minutos depois, tomava um café no bar em frente à delegacia. Permaneceu de pé junto ao balcão, bebericando o café sem pressa, atento às pessoas que passavam sob o arco de entrada da 12ª DP. Não queria se demorar para não chamar a atenção. Passados quinze minutos, saiu andando em direção à Barata Ribeiro, distante não mais de vinte metros. O tráfego de veículos àquela hora era intenso. Atravessou a rua e ficou defronte à vitrine da loja da esquina, mas com a atenção voltada para o movimento de saída da delegacia. Às sete horas, viu o delegado surgir na calçada, pegar à esquerda e descer a rua em direção à esquina onde ele se encontrava. Caminhava sem pressa, como se estivesse remoendo uma ideia, aparentemente sem rumo certo. Esperou para ver se ele dobraria na Barata Ribeiro ou se continuaria até a avenida Copacabana. Ele continuou. Melhor assim. Daquele ponto em diante, podia adivinhar o trajeto completo que o delegado faria. Manteve uma distância segura até virarem à direita na avenida Copacabana, quando então, devido ao número de pedestres, pôde se aproximar sem risco de ser notado, embora o delegado não parecesse interessado em nada do que acontecia a sua volta. Depois de percorrerem duas quadras e meia, entraram na galeria Menescal, onde o movimento era menos intenso. Mais ou menos na metade da galeria, o delegado diminuiu o passo e entrou no pequeno restaurante árabe, parecendo nem prestar atenção no que fazia. (…)

Na Barata Ribeiro, voltou uma quadra e meia até a Siqueira Campos, quase completando um quadrado perfeito desde que se afastara da delegacia. Subiu a rua com passo firme, sem olhar para trás ou para os lados. Sem se importar com o intenso movimento de pedestres, passou a estação do metrô e a bifurcação da Siqueira Campos com a ladeira dos Tabajaras e em poucos minutos entrava em seu prédio, uma construção antiga, pequena e de apenas três pavimentos,
com um apartamento por andar.”

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Editora: Companhia das Letras
Páginas: 184
Preço: 47,90