Por Bárbara Anaissi

Clementina de Jesus nasceu em Valença, no ano de 1901, filha de escravos libertos. Chegou no Rio aos 7 anos e a cidade marcou sua trajetória. Foi no pastoril de João Cartolinha e na escola de samba Unidos do Riachuelo que teve suas primeiras experiências como cantora e sambista. Foi também aqui, em 1938, numa festa de São João, que conheceu seu amor, Albino Pé-Grande.

Sua vida está minuciosamente relatada em Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus, escrita após seis anos de pesquisa pelos jovens Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz. É um mergulho no Rio de Janeiro do século XX.

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Negra e pobre, Quelé foi empregada doméstica no Grajaú. Aos 63 anos foi descoberta, na Taberna da Glória, por Hermínio Bello de Carvalho, que ouviu seu canto na comemoração do Dia de Nossa Senhora da Glória. O compositor, poeta e produtor fez da “voz de navalha” a figura central do samba. Na época o gênero musical passava por um momento em que se tentava afastá-lo dos batuques africanos. E Clementina foi um importante contraponto a esse movimento, trazendo as canções de escravos que escutava a mãe cantar enquanto lavava roupa na beira do rio. Canções que provavelmente foram ensinadas por seus avós, que vieram do Golfo da Guiné, na África.

Ela foi inspiração para inúmeros artistas, como Caetano Veloso, Beth Carvalho, Milton Nascimento e Naná Vasconcelos. Paulinho da Viola conta que “Tudo o que se fala de Clementina de Jesus não tem a dimensão da presença dela. Ouvi-la cantando, sentada, com o seu vestido de renda, era algo absolutamente fascinante, difícil de transmitir, de traduzir em palavras.” Clementina morreu aos 86 anos, ainda pobre, como a maioria de seu povo.

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Editora: Civilização Brasileira
Páginas: 384
Preço: R$ 49,90

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Fotos: divulgação