Por Laura Souza

A Bossa Nova é do Rio, é a cara do Rio, nasceu no Rio. E está muito viva nos dias de hoje. E esse “hoje” não remete a um passado próximo em que João Donato fixava seu topete com Brylcreem – o famoso fixador de cabelos da época – ou os joelhos da musa Nara Leão levavam ao delírio os que tinham o prazer de vê-los na fila do gargarejo. Esse “hoje” é o agora, pois como bem cultural a Bossa Nova dura e perdura.

Mestres da Bossa: Toquinho, Tom e Vinicius.
Mestres da Bossa: Toquinho, Tom e Vinicius.

No entanto, não basta sair do aeroporto para cruzar com a Garota de Ipanema, acompanhada de Tom Jobim e Newton Mendonça afinados nos primeiros acordes de “Desafinado” e João Gilberto cantando “O Pato”. Existem caminhos a percorrer para encontrar os lugares em que ainda é tocada a Bossa Nova – sejam ruas, praias ou casas. Um verdadeiro roteiro histórico e geográfico do gênero musical.

Casa Villarino
Um dos berços da Bossa Nova. Inaugurado em 1953 como delicatéssen e uisqueria, foi lá que Tom e Vinicius se conheceram e começaram a parceria. Hoje, o Villarino é de um ex-garçom – Antonio Vasquez –, que era do tempo em que os frequentadores da casa eram os compositores Ary Barroso e Dorival Caymmi, o cronista Sergio Porto, a cantora Aracy de Almeida, entre muitos outros personagens ilustres. Agora o forte são as lulas com arroz e o bacalhau. E seguem conservados os pisos, portais e mobiliário – inclusive a “mesa de Tom e Vinicius”.

Avenida Calógeras, 6, loja B – Centro
2240-1627
Funcionamento: Segunda, das 12h às 19h / Terça a sexta, das 12h às 21h
www.villarino.com.br

A mesa de Tom e Vinicius ao fundo.
A mesa de Tom e Vinicius ao fundo.

Beco das Garrafas
A história musical do Rio de Janeiro tem lugar cativo em um cantinho de Copacabana. Nas boates e bares do Beco das Garrafas, na rua Duvivier, uma elite musical fez os primeiros shows e despontou para o estrelato. Nas décadas de 1950 e 1960, quatro boates minúsculas, Ma Griffe, Little Club, Bacarat e Bottle’s, foram cenários de tempos deliciosos para a noite e para a música carioca. Dolores Duran, Wilson Simonal, Leni Andrade, Sérgio Mendes, Jorge Ben (naquela época não existia o Benjor!), Edu Lobo e Baden Powell são alguns dos nomes que se apresentaram lá.

Billy Blanco, Odete Lara, Dorival Caymmi, Zé Keti, Tom Jobim e Cartola, no Beco das Garrafas.
Billy Blanco, Odete Lara, Dorival Caymmi, Zé Keti, Tom Jobim e Cartola, no Beco das Garrafas.

O nome “Beco das Garrafas” vem de uma historinha conhecida (ou lenda urbana, sabe-se lá!), mas que vale repetir. O barulho dos shows e das conversas incomodava demais os moradores do lugar e os mais revoltados jogavam garrafas no beco para expulsar músicos e público. O fato inusitado ganhou fama e Sérgio Porto, em uma crônica, se referiu ao local como “beco das garrafadas”. O nome foi levemente deturpado e, embora assim batizado, ficou conhecido mesmo como “Beco das Garrafas”.

Com o sucesso da música brasileira, os artistas ganharam o mundo e as pequenas casas do beco não comportavam mais seus shows. O lugar foi perdendo clientes, esvaziando e caiu no esquecimento.

beco das garrafas

Mas em 2014 o Beco das Garrafas voltou. Com a expectativa de resgatar a Bossa Nova e abrir espaço para novos talentos, a programação inclui diversos shows de bandas do novo cenário da música brasileira, festas e eventos especiais de turismo – chamados de Bossa Nova Tour/Experience. Para conhecer, é só ir até lá! O Beco das Garrafas funciona todos os dias, com shows a partir das 20h.

Rua Duvivier, 37 – Copacabana
2543-2962
Funcionamento: todos os dias, shows a partir das 20h.
www.becodasgarrafas.mus.br

Espaço Tom Jobim
Inaugurado em 2006, o Espaço Tom Jobim – Cultura e Meio Ambiente é uma verdadeira ode à memória e à obra do compositor e à sua grande paixão fora da música: a natureza. O polo cultural conta com um acervo enorme, entre discos, fitas, fotos, manuscritos, partituras, entrevistas, rascunhos, cartas e mobiliário. Todo esse tesouro de Tom fica disponível para consulta e acessível para apreciação.

Exposição no Espaço Tom Jobim.
Exposição no Espaço Tom Jobim.

O Espaço é localizado dentro do Jardim Botânico e não poderia haver lugar melhor. O bairro foi o último que Tom morou antes de morrer, era aonde ele ia todos os dias em seus últimos anos e foi onde seu corpo foi velado. Sobre o Jardim, além do Espaço, Tom deixou o livro O Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Hoje o Espaço é composto pelo Teatro Tom Jobim, o Galpão das Artes e a Casa do Acervo. O teatro recebe espetáculos de música, dança e, claro, teatro, além de eventos como conferências e simpósios. O Galpão das Artes é um local para espetáculos menores e conta ainda com um espaço de exposições. A Casa do Acervo é onde fica o acervo completo e mantém uma exposição permanente com fotos, partituras originais, objetos pessoais e vídeos de alguns espetáculos do compositor.

Espaço Tom Jobim
Espaço Tom Jobim

Rua Jardim Botânico, 1008
3874-1808 / 3874-1214
Funcionamento: De terça a domingo, a partir das 14h.
jbrj.gov.br/visitacao/espacotomjobim

Bar Veloso / Garota de Ipanema
Ponto de encontro de Tom Jobim e Vinicius de Moraes e de muitos outros nomes importantes da Bossa Nova entre os anos 1950 e 1960, o Veloso tinha (e tem até hoje!) uma localização estratégica: a dois quarteirões da Praia de Ipanema. Localizado numa esquina, com mesas quase na calçada, petiscos simples e chope gelado, o “pé-sujo” entrou para a história.

Em uma tarde de 1962, Tom e Vinicius, eternos apaixonados pelas mulheres, observavam o movimento privilegiado do pedaço quando viram Helô Pinheiro. Com 19 anos e uma beleza “cheia de graça”, a jovem entrou no bar para comprar cigarros e foi a inspiração para a mundialmente conhecida “Garota de Ipanema”. Tom compôs a música e Vinicius, a letra, no clima carioquíssimo do Veloso.

Em 1967, o Veloso adotou o nome de “Garota de Ipanema” e o mantém até hoje. Mesmo passando por reformas, o bar continua sendo um ponto quase turístico, parada obrigatória para quem quer usufruir do que lá tem de melhor: um chope gelado, um petisco saboroso, uma conversa fiada e vários doces balanços a caminho do mar.

Bar Veloso nos anos 1960.
Bar Veloso nos anos 1960.

Rua Vinicius de Moraes, 49 – Ipanema
2522-0340
De segunda a domingo, das 12h às 2h
www.bargarotadeipanema.com.br

Para embalar as memórias, montamos um roteiro musical com Tom, Vinicius, Nara Leão, João Gilberto e muito mais.  Para ouvir a caminho do mar.

 

Fotos: Divulgação e acervo Rara Cultural (Guia Boni & Amaral).