Por Laura Souza

Hoje é o Dia Nacional da Cachaça. Para comemorar, nada melhor que degustar essa bebida brasileiríssima e ainda saber um pouco mais de sua história. O Rio Book selecionou um trecho do livro “A Cara do Rio”, de Ricardo Amaral e Raquel Oguri (Rara Cultural), para falar sobre a “branquinha”. E, para quem ficar com água na boca, as recomendações de onde beber cachaça no Rio estão logo a seguir. Um brinde!

Só o Rio poderia ter uma “Revolta da Cachaça” como primeiro movimento social

“Apesar de atualmente a cerveja ocupar lugar de destaque quando se fala em preferência nacional, a bebida alcóolica que tem presença histórica na formação do carioca é a cachaça. A primeira atividade econômica estruturada no Rio de Janeiro, logo no início da sua fundação, foi a produção de açúcar e, em menor escala, a da cachaça!

Foi em 1570 que o governador Salvador Benevides Correia de Sá, sucessor e sobrinho do fundador do Rio, Estácio de Sá, instalou o primeiro engenho de cana na cidade. O local escolhido foi a Ilha do Governador, (…) onde produzia além do açúcar, a marvada.

Desde então, esse produto genuinamente brasileiro marca a trajetória da cidade. Não só no aspecto da tradição de se apreciar a bebida, mas até mesmo no que se refere ao comportamento político.

Por incrível que pareça, a cachaça foi uma das principais motivadoras da primeira manifestação de revolta e insatisfação do carioca diante de um governo. E olha que isso foi nos idos de 1660!

As coisas já não iam muito bem em relação ao governo de Salvador de Sá no Rio. A começar pelo seu evidente nepotismo, colocando parentes, amigos e amancebados para proteger seu território de poder. Além disso, suas resoluções econômicas terminavam sempre em um festival de taxas. O governador era uma espécie de rei dos impostos.(…)

Mas o bicho pegou mesmo quando Salvador de Sá resolveu taxar a produção de cachaça. Pesar a mão na marvada, nem pensar! Essa foi a gota d’água para a população, que se debandou para rua. Foram várias as manifestações de insatisfação, até que o governador e toda sua cambada de parentes, criados, amigos e afeiçoados foram obrigados a sair da Colônia. A Corte portuguesa só teve conhecimento das arbitrariedades do governador graças ao bafafá criado pelo povo do Rio.

E assim, em maio de 1661, de acordo com a deliberação do Conselho Ultramarino, Salvador de Sá foi substituído por Pedro de Mello. Graças à chamada ‘Revolta da cachaça’, teve fim o domínio político dos Correia de Sá no Rio de Janeiro.

A história da revolta é tão significativa e importante que devíamos com mais frequência homenagear a marvada, agora tão em moda também nas altas-rodas, nem que fosse diariamente dando um golinho para o santo…”

Onde beber cachaça no Rio

Academia da Cachaça
A Academia da Cachaça tem gosto de Brasil em tudo. Desde a decoração até os sutis ingredientes de cada um de seus produtos e na inventividade com que busca na tradição inspiração para inovar.
No bar, a cachaça é quem manda! Está em todos os lugares: no copo de cristal pronta para ser degustada e no preparo dos drinques, combinações tropicais de sabor e cor. É possível experimentar cachaças de diversas regiões do Brasil, como a Anísio Santiago, de Minas Gerais, a Armazém Vieira, de Santa Catarina e a Magnífica, do Rio. São 90 marcas disponíveis e algumas são servidas geladas. Uma delícia!

Doses de cachaça na Academia (Acervo Guia Boni & Amaral - Berg Silva)
Doses de cachaça na Academia (Acervo Guia Boni & Amaral – Berg Silva)

Rua Conde Bernadotte, 26 – Leblon
Tel.: 2529-2680 / 2239-1542
www.academiadacachaca.com.br

Noo Cachaçaria
Mais um bar a tratar a cachaça com o protagonismo que ela merece. A carta com mais de 70 rótulos é só o começo da brincadeira… e espere encontrar ícones do naipe de Nega Fulô, Weber Haus, Magnífica, Rainha do Vale, Germana e outras belezuras. Os drinques da casa abusam das brincadeiras com a bebida, usando a cachaça como substituto em misturas clássicas, como o Sex on The Beach, que aqui vira Sex on the Carnival. A gastronomia é criativamente brasileira e cachacista. Aos que chegam, a pipoca com páprica oferecida de graça é um mimo sempre bem-recebido. Mas a brincadeira mais divertida ali é participar do rodízio de comida brasileira. Sim, aquilo tudo que amamos.

Cachaças com ostras: combinação da Noo. (Divulgação)
Cachaças com ostras: combinação da Noo. (Divulgação)

Rua Barão De Iguatemi, 358, Praça da Bandeira
Tel.: 3689 4388
facebook.com/noocachacaria

Galeto Sat’s
Aqui as atrações são muitas. Vão desde escolher entre os molhos de limão, alho ou laranja – ou ainda um que mistura os três –, o tenro franguinho na brasa, a simpatia dos donos Sérgio e Elaine… Mas hoje vamos destacar a inconfundível carta de cachaças! Dono da maior e melhor carta de cachaças da cidade, os mais de 400 rótulos garantem que tem a marvada para agradar todos os gostos e ninguém botar defeito. E se não bastasse tudo isso, o Galeto Sat’s funciona até quase de manhã porque, segundo os donos, não existe hora certa para ser feliz entre amigos, comer e beber com qualidade na mesa de um bar. Ou seja, dá tempo de experimentar muitas cachaças e ainda comer um delicioso galeto!

Sérgio e as cachaças do Galeto Sat's. (Acervo Guia Boni & Amaral - Berg Silva)
Sérgio e as cachaças do Galeto Sat’s. (Acervo Guia Boni & Amaral – Berg Silva)

Rua Barata Ribeiro, 7d – Copacabana
Tel.: 2275-6197
Rua Real Grandeza, 212 – Botafogo
Tel.: 2266-6266
facebook.com/galetosats

Casa da Cachaça da Lapa
A primeira cachaçaria do Rio abriu em 1960. Desde então se tornou um ponto de encontro da boemia carioca e guarda a história e a tradição da efervescente Lapa, sendo frequentada por artistas, figuras públicas e turistas de todas as partes do mundo.
A Casa da Cachaça da Lapa foi a primeira a usar esse nome e tem uma dedicação nobre com o produto tipicamente brasileiro, oferecendo aos seus clientes as melhores e mais saborosas “branquinhas”. Ao todo são mais de 200 tipos diferentes! Para acompanhar, um cardápio com petiscos simples e típicos dos apreciadores da bebida.
Considerada um Patrimônio Cultural Carioca, aqui você encontra também cachaças raras, como a Havana, cachaças de sabores especiais, como as de jambú, pistache, gengibre e a famosa Gabriela, com cravo, canela e melado de cana.

Variedade da Casa da Cachaça. (Divulgação)
Variedade da Casa da Cachaça. (Divulgação)

Avenida Mem de Sá 110-A, Lapa
www.casadacachacadalapa.com.br

Armazém São Thiago / Bar do Gomez
Jesus Pose Garcia veio lá da Espanha para o Rio de Janeiro. Após uns bicos, em 1919, comprou o estabelecimento e deu o nome de Armazém São Thiago em referência à Santiago de Compostela. Anos depois, em 1955, chega também da Espanha seu sobrinho-neto, José Gomez Cantorna (Seu Gomez), que ainda hoje vem ao Armazém e vira o centro das atenções com suas histórias dos velhos e bons tempos. “Seu Gomez” durante muitos anos atendeu a freguesia com seu carisma inigualável e por isso o Armazém ganhou o apelido de Bar do Gomez.
Após o falecimento do filho do fundador, em 2003, o neto Ricardo Pose Garcia iniciou uma reforma a fim de recuperar a arquitetura da época do seu avô, restaurando todos os móveis e utensílios conforme fotos e documentos achados de 1923, bem como seu nome original.
Hoje, o típico botequim carioca de época, como anuncia a placa na entrada da casa, dá a impressão de que entramos em um Rio de Janeiro que já desapareceu. O verdadeiro espírito de um botequim se mantém, assim como o cardápio tradicionalíssimo: cervejas, charutos cubanos, chopp, frios e petiscos, vinho, whisky e, é claro, um lugar especial só para as cachaças. Com mais de 100 rótulos disponíveis, tomar uma cachacinha no Armazém São Thiago – ou Bar do Gomez, como o cliente preferir – é uma forma especial de viajar ao passado e conhecer melhor um dos bairros mais bucólicos e boêmios do Rio – Santa Teresa.

Caipirinha com cachaça e bolinhos do Armazém São Thiago. (Divulgação)
Caipirinha com cachaça e bolinhos do Armazém São Thiago. (Divulgação)

Rua Áurea, 26 – Santa Teresa
2232-0822
www.armazemsaothiago.com.br