Por Laura Souza

Vila Isabel é um dos bairros do Rio que tem o privilégio de ser considerado o berço do samba. Cantado em sambas famosos por todo o Brasil, teve entre seus ilustres moradores vários compositores e intérpretes fundamentais para a música carioca. Noel Rosa, Martinho da Vila, Lamartine Babo e João de Barro (mais conhecidos como Lalá e Braguinha) se destacam, são os mais conhecidos até hoje. Mas outros também viveram por lá, como Orestes Barbosa, J. Cascata, Francisco Alves, Nássara, Valzinho, Cyro de Souza, João Petra de Barros, Luis Peixoto, Guilherme de Brito, Ewaldo Ruy, Haroldo Barbosa, Nei Lopes, Aldir Blanc, Luiz Carlos da Vila,… A lista parece não ter fim.

Porém, o nome mais importante para Vila Isabel foi João Batista Viana Drummond – ou, como viria a ser chamado depois, Barão de Drummond. Foi do espírito empreendedor do empresário (muito à frente de seu tempo, diga-se de passagem!) que surgiu o bairro, fundando em 1873. O Rio de Janeiro estava se tornando uma metrópole mundial e Drummond percebeu que estava diante de uma área com grande potencial de desenvolvimento comercial. Pediu à Corte a instalação de uma linha carril ligando a então Fazenda dos Macacos ao Centro da cidade e, logo depois, comprou toda a região.

O Barão de Drummond
O Barão de Drummond

Visando a colonização do local, Drummond criou a Companhia Arquitetônica. Seu objetivo era possibilitar a urbanização do bairro para que este ostentasse uma aparência tão moderna quanto Paris. E, assim, Vila Isabel foi um dos primeiros bairros projetados da história da cidade.

Drummond era abolicionista e amigo de figuras de destaque que compartilhavam os seus ideais políticos. Por isso, deu às ruas e praças de seu empreendimento nomes e datas relacionadas à causa, como forma de homenagem. O nome do bairro prestigiou a própria Princesa Isabel; sua principal via, a Boulevard 28 de Setembro, é uma homenagem à data em que a Lei do Ventre Livre foi sancionada, e as principais ruas ganharam os nomes de abolicionistas notáveis.

Além de seu talento para empreendedorismo, o Barão também gostava muito de animais, e possuia diversos espécimes. Mas sua, digamos, “coleção” era legalizada, pois ele tinha autorização para importar os bichos. Assim, ele criou o primeiro Zoológico do Rio, em Vila Isabel (é claro!), em 1888. Porém, com a Proclamação da República pelo Marechal Deodoro da Fonseca em 1889, perdeu a ajuda financeira que tinha do Imperador para manter o Zoológico.

Mas Drummond soube resolver a questão com uma estratégia que reverbera na cidade até os dias de hoje. Ele inventou uma loteria para financiá-lo. Funcionava da seguinte forma: cada número representava uma animal e cada ingresso do Zoológico dava direito a um bilhete numerado para concorrer ao sorteio “bicho” no dia do encerramento das atividades do parque. Soa familiar? O “Jogo do Bicho” ganhou as ruas do Rio e mesmo depois de proibido se popularizou e se espalhou por todo o Brasil. Obra do Barão!

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Bilhete de ingresso do Zoológico

Entre o Zoológico e Noel Rosa e Martinho, muita água correu por debaixo da ponte. Ou melhor, muita história passou pelo Boulevard 28 de Setembro. Na “Época de Ouro” da música brasileira, Noel Rosa estava dentro do turbilhão de inovações tecnológicas e surgimento de muitos artistas ligados à música.

Ainda jovem, com apenas 19 anos, Noel já tinha gravado suas primeiras músicas. Logo depois, emplacou o seu primeiro sucesso – que ainda é sucesso até hoje! – com o samba “Com que roupa”. Trabalhou no rádio como cantor e contrarregra e fez diversas canções para o cinema. Marcou a história da Vila e soube traduzir bem seu sentimento pelo bairro quando compôs seu hino não-oficial:

“Quem nasce lá na Vila/ Nem sequer vacila/ Ao abraçar o samba

(…) Lá, em Vila Isabel/ Quem é bacharel/ Não tem medo de bamba

São Paulo dá café/ Minas dá leite/ E a Vila Isabel dá samba…”

Outros dois ilustres moradores foram Braguinha e Lalá. Apesar de terem passeado por todos os gêneros musicais com maestria (com o perdão do trocadilho), os dois se consagraram pela autoria de canções que legitimaram um dos gêneros mais importantes (e com mais cara de Brasil) da música brasileira: as marchinhas de Carnaval.

Martinho José Ferreira já entrega logo no nome que é, com muito orgulho, “cria” de Vila Isabel. O cantor, compositor, escritor e músico brasileiro mudou-se para o Rio de Janeiro quando tinha quatro anos. Filho de lavradores, serviu o Exército e seguia a profissão de escrevente e contador quando respondeu ao chamado da música em definitivo para se tornar cantor profissional. Daí em diante, surgiu Martinho da Vila e seus seguidos sucessos.

A história de Martinho se confunde, inclusive, com a história da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel. Desde 1965 ele se dedica à sua escola de coração. Já escreveu muitos sambas-enredo. Um deles, inclusive, foi campeão do concurso de 2010, homenageando Noel Rosa, que completaria seu centenário naquele ano. De compositor para compositor, uma verdadeira declaração musical.

Martinho da Vila e a escultura de Noel Rosa
Martinho da Vila e a escultura de Noel Rosa

Por ser berço do samba, da música, de tantos compositores e intérpretes, o local pode ser considerado um bairro musical, de vida boêmia. Por conta disso, em 1965, nas comemorações do IV Centenário da Cidade do Rio de Janeiro, o arquiteto Orlando Magdalena teve a ideia de decorar as calçadas do Boulevard 28 de Setembro com pedras portuguesas desenhando partituras de músicas de grandes compositores. Ele teve a curadoria de ninguém menos que o músico Almirante, que escolheu as músicas que estampariam as calçadas. E assim foram construídas as “calçadas musicais de Vila Isabel”. Desde a Praça Maracanã até a Praça Barão de Drummond é possível ver as partituras de “Cidade Maravilhosa” (André Filho), “Ô Abre Alas” (Chiquinha Gonzaga), “Feitiço da Vila” (Noel Rosa/Vadico), “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), “Carinhoso” (Pixinguinha/João de Barro), “Linda Morena” (Lamartine Babo), “Renascer das Cinzas” (Martinho da Vila) e muitas outras.

Uma parte da calçada musical de Vila Isabel
Uma parte da calçada musical de Vila Isabel

Uma verdadeira ode à música brasileira e ao musical e boêmio bairro de Vila Isabel!