Por Laura Souza

A famosa e consagrada Música Popular Brasileira só poderia ter surgido em terras cariocas, mesmo berço onde grandes nomes da música se destacaram. Com fortíssima influência da segunda geração da Bossa Nova, no final dos anos 60, o estilo já começou sendo um movimento de junção, uma típica “mistura da gema”.

Os dois movimentos culturais e musicais que deram origem à MPB eram, até então, divergentes: a Bossa Nova, que defendia a sofisticação musical, e os Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes, que  lutavam pela fidelidade à música de raiz brasileira. A fusão dos propósitos dos dois grupos veio com o golpe de 1964, quando eles se tornaram uma frente ampla cultural contra o regime militar, adotando a sigla MPB na sua bandeira de luta.

A Música Popular Brasileira foi uma tentativa de produzir música a partir de estilos tradicionais. Seu impacto considerável na década de 1960 aconteceu, em grande parte, graças a vários festivais de música. Há quem diga que “Arrastão”, de Vinicius de Moraes e Edu Lobo e defendida por Elis Regina no I Festival de Música Popular Brasileira, na TV Excelsior, é a divisa entre a Bossa Nova e o movimento que seria conhecido como MPB.

E é esse espírito que o Festival Harmonia deseja resgatar no Rio de Janeiro. Já famoso por trazer grandes nomes da Música Popular Brasileira, na edição que fechará a temporada de 2017, fará uma releitura de três grandes pilares, verdadeiras referências no que diz respeito à formação da cultura musical brasileira.

Pixinguinha por Hamilton de Holanda e Carlos Malta

Do primeiro homenageado o Rio Book já falou, mas é sempre um prazer revisitar a história do (que muitos estudiosos dizem ser o) mais importante compositor brasileiro de todos os tempos: Pixinguinha. Alfredo da Rocha Vianna Filho nasceu (ou melhor, estreou) em 1897. Cresceu no meio dos chorões, sendo sua casa o ponto de encontro para nomes como Heitor Villa-Lobos e outros grandes músicos e compositores de sua época.

Autodidata, o pequeno Alfredo entrou na Orquestra do Teatro Rio Branco com apenas 14 anos com uma flauta que era quase do seu tamanho. A partir dai, não parou mais. Passou a tocar em cinemas, teatro e gravações. E como se não bastasse ser um expoente na flauta, ele se tornou um mestre no saxofone. Quando compôs “Carinhoso”, ele não sabia que se tornaria uma música imortal, nem que estaria revolucionando a forma clássica do choro.

Pixinguinha passou seus últimos anos de vida (ele faleceu em 1973) como o verdadeiro boêmio que era. Feliz e de pijamas, frequentava o Bar da Portuguesa, em Ramos. Pela importante presença constante do ilustre cliente, o bar ganhou, em 2016, uma estátua dele. Sentado à mesa, em postura informal e de chinelos, parece que a qualquer momento ele levantará a mão para chamar o garçom. Mais carioca, impossível!

A estátua de Pixinguinha no Bar da Portuguesa
A estátua de Pixinguinha no Bar da Portuguesa

Quem fará a homenagem ao carioquíssimo compositor serão outros dois cariocas que também não deixam nada a desejar no quesito talento musical. Hamilton de Holanda e Carlos Malta darão conta do recado, cada um na sua área. Hamilton é bandolinista e compositor e Carlos Malta toca diversos tipos de flauta (flautim, flauta, pífano, flauta baixo, flautas indígenas, entre outros), além de clarinete, clarone e saxofone. Alguma dúvida de que será uma homenagem incrível?

Gonzaguinha por Ivan Lins e Fernanda Gonzaga

Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior já nasceu levando no nome a responsabilidade de ser descendente de um ícone da música. Filho do cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga, Gonzaguinha começou cedo: compôs a primeira canção aos 14 anos. Mais tarde, fundou o Movimento Artístico Universitário (MAU), que teve importante papel na música popular brasileira dos anos 1970.

Gonzaguinha e seu pai, Gonzagão
Gonzaguinha e seu pai, Gonzagão

No começa de sua carreira, sua apresentação era agressiva e pouco agradável aos olhos dos meios de comunicação. Mas com o começo da abertura política, as canções ásperas deram lugar a outras de tom mais aprazível para o público da época. Suas composições foram gravadas por grandes intérpretes da MPB, como Maria Bethânia, Zizi Possi, Simone, Elis Regina, Fagner, Simone, entre outros.

Ivan Lins e Fernanda Gonzaga serão os responsáveis por interpretar suas canções no Festival Harmonia. O cantor, pianista e compositor fará uma homenagem ao grande amigo, com quem fundou o MAU. Já Fernanda Gonzaga fala pelo sobrenome: é filha de Gonzaguinha. Já fez um show recordando o repertório do pai e promete honrar a memória dos Gonzaga no festival.

Dorival Caymmi por Daniela Mercury

Era um artista de muitas facetas. O cantor, compositor, violonista, pintor e ator baiano compunha suas obras inspirado pelos hábitos, costumes e as tradições de seu povo. Outra grande influência era a música negra. Por conta dela, desenvolveu um estilo pessoal de compor e cantar, demonstrando espontaneidade nos versos, sensualidade e riqueza melódica.

O poeta popular deixou uma riquíssima herança para a música popular brasileira. Além de músicas como Saudade da Bahia, Samba da minha Terra, Doralice, Marina, Modinha para Gabriela, Maracangalha, Saudade de Itapuã, O Dengo que a Nega Tem, Rosa Morena, deu origem a um clã cheio de talentos. Seus três filhos, Nana, Dori e Danilo Caymmi, também são cantores, assim como suas netas, Juliana e Alice.

Dorival Caymmi
Dorival Caymmi

A intérprete de suas músicas será ninguém menos que a baianíssima Daniela Mercury. A cantora, compositora, instrumentista, produtora musical e atriz já vendeu mais de 20 milhões de discos em todo o mundo. Dona de uma voz inconfundível e de uma energia que lhe rendeu o apelido de “Furacão da Bahia”, Daniela já lançou hits que foram responsáveis por colocar o axé music em evidência no Brasil inteiro.

A noite promete ser belíssima e emocionante! Os mestres serão homenageados por convidados, que serão talentosos cantores contemporâneos, e por uma banda com alguns dos melhores instrumentistas brasileiros. Para completar, o cenário digital é assinado por VJ Ratón e promete dar o tom certo para o emocionante espetáculo.

O Rio Book se inspirou e preparou uma playlist com os sucessos dos grandes mestres homenageados, interpretados por outros cantores. Para ouvir de olhos fechados e relembrando o passado. Uma delícia!

Informações do Local:

Praça Floriano, s/nº – Cinelândia

2332 9191 / 2332 9134


Quinta (9/11), às 20h30