Por Bárbara Anaissi

Boteco, segundo o dicionário Houaiss, é: “pequena venda tosca onde servem bebidas, algum tira-gosto, fumo, cigarros, balas, alguns artigos de primeira necessidade, geralmente situado na periferia das cidades ou à beira de estradas”. Dizem que “boteco” vem de “botequim”, que por sua vez vem de “botica”, termo português. Boteco, botequim, pé-sujo, bunda de fora: são muitos os codinomes para uma só paixão. Muito do espírito e da alma do carioca está no botequim.

Memória afetiva do botequim carioca reúne um time de especialistas no assunto: Sergio Cabral e Aldir Blanc ficaram no balcão apresentando o livro; Flávio Silveira foi pesquisar de mesa em mesa; Leo Feijó ficou na cozinha, produzindo; Aline Brufato, que acabou de fechar as portas do lendário bar Semente, foi a gestora da bagunça, e Paulo Thiago de Mello e Zé Octávio Sebadelhe juntaram tudo em anotações de guardanapo.

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O resultado? Textos deliciosos sobre as origens e os aspectos dos botequins, incluindo seu mobiliário e arquitetura, e um panorama da história da bebida alcoólica no Brasil. E como não poderia faltar em assunto tão importante: são muitas as curiosidades e anedotas sobre os personagens de boteco. Estão no livro 30 dos bares e botequins que marcaram a história do Rio de meados do século XIX ao século XXI.

Música, literatura e política estão sempre em pauta em uma mesa de bar e aqui não é diferente. Essa turma boa fala sobre a boemia de Ipanema, a fossa de Copacabana, o rock da Tijuca, o samba e a bossa nova do Centro; o Divino, que viu surgir a parceria entre Roberto e Erasmo Carlos; o Antonio’s e os encontros de Chico Buarque, Vinicius de Moraes e Tom Jobim; Paulinho da Viola começando no Zicartola; os debates políticos no Barbas nos anos 80 e muito mais.

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Os autores: Zé Octávio Sebadelhe e Paulo Thiago de Mello

E tem tira-gosto para o leitor do Rio Book – pequeno trecho da apresentação de Aldir Blanc:

“É importante para mim escrever sobre os bares selecionados em livro tão bacana. Porque bebi em quase todos e alguns fazem parte da minha vida. Então vou preferir, em vez de uma abordagem formal, contar “causos” vividos, como se estivesse num buteco com amigos — no caso, os leitores.

Bom, vou pela ordem: No Bar Luiz, haja fígado, tomei muito chope preto e, o que não faz muito meu gênero, comia de deixar pasmos os biriteiros da mesa. Adoro tira-gostos e o Bar Luiz é campeão. Uma vez, já altos, Zeca Mello Menezes e eu convidamos para a nossa mesa um rapaz negro que vagava pelo bar. Ele disse que era conhecido como Jota da Abolição. Vocês sabem como essas coisas funcionam em bar: o cara virou em cinco minutos Jotinha, 1888, Zé do Patrocínio e até Princesa Isabel… Quando o Bar Luiz fechou, fizemos a ronda de outros bares e gafieiras. Na companhia de moças levadinhas, fomos para um hotel naquela subida no final do Leblon e PERDEMOS o Jotinha!!! Espero que ele não tenha caído no mar.”

Editora José Olympio
256 páginas
Capa dura
R$ 70,90

Fotos: divulgação
Foto do destaque: Acervo Guia Boni & Amaral /Rara Cultural (Berg Silva)