Por Bárbara Anaissi

O Rio estimula a arte de passear, de vagabundear (no melhor sentido da palavra!), de flertar. E assim estimula também, há muitos e muitos anos, a existência de inesquecíveis flaneurs. E a dica literária da semana se desdobra em quatro para um passeio inesquecível.

Escritores como Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis, João do Rio e Lima Barreto nos fazem enxergar e sentir o Rio de Janeiro, nos seduzem como se pegassem em nossas mãos e nos guiassem em uma deliciosa caminhada. São tão poderosas as palavras desses mestres que parece até que ouvimos o som da cidade, o burburinho das ruas…

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Em 1862, Macedinho, autor de A moreninha, começou a publicar no Jornal do Commercio o folhetim semanal Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, considerado um dos primeiros guias da Sebastianópolis. Vejam o sabor e o humor de seu convite:

Se algum dos meus leitores é, por infelicidade, paralítico, se algum outro quebrou as pernas na luta eleitoral de dezembro último (…) se ainda outro está tão atarefado com os cinco ou seis cargos em que se consagra ao serviço da Pátria que não tem tempo de dar um passo na rua, ainda esses mesmos não serão privados de passear comigo. Não há incompatibilidade que afete o nosso passeio. Não preciso pedir o braço, apenas peço a atenção dos meus leitores. Eu passearei escrevendo, eles lendo, e ainda assim – oh! Fatal ideia! – pode bem ser que eles se fatiguem primeiro do que eu.  

Acendamos pois um havana (da Bahia), ou um manilha (do Rio de Janeiro), e … passeemos. 

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Machado de Assis, carioca do Morro do Livramento e autodidata, transborda paixão e fascínio pela cidade em seus textos. As cores e nuances que dá ao Rio são únicas. Seja em romances, contos ou crônicas ele nos leva para as ruas da cidade, como nesse trecho publicado no jornal A Semana, em 1893:

Há anos chegou aqui um viajante que se relacionou comigo. Uma noite falamos da cidade e sua historia; ele mostrou desejo de conhecer alguma velha construção. Citei-lhe várias: entre elas a igreja do Castelo e seus altares. Ajustamos que no dia seguinte iria buscá-lo para subir o morro do Castelo. Era uma bela manhã, não sei se de inverno ou primavera. Subimos e eu, para dispor-lhe o espírito, ia-lhe pintando o tempo em que por aquela mesma ladeira passavam os padres jesuítas, a cidade pequena, os costumes toscos, a devoção grande e sincera. Chegamos ao alto, a igreja estava aberta e entramos. Sei que não são ruínas de Atenas: mas cada um mostra o que possui. O viajante entrou, deu uma volta, saiu e foi postar-se junto à muralha, fitando o mar, o céu e as montanhas, e, ao cabo de cinco minutos: “Que natureza que vocês têm!”.

Mas há quem diga que a alma das ruas está mesmo é com João do Rio. Ele nos ensinou que não é a rua o que lemos nos dicionários e dizia: “Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator na vida das cidades, a rua tem alma!” Seduzido pelo lado mais obscuro da cidade, gostava das sombras, das vielas tortuosas, dos mistérios, mas também olhava a luz solar da cidade como ninguém. Delicie-se com esse trecho de A alma encantadora das ruas:

A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua criou todas as blagues todos os lugares-comuns. (…) A rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios, para ela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar triste, quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto da vida renovada, no chilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões — tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguear com o céu e com os anjos…

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Falar de flaneur carioca sem citar Lima Barreto seria sacrilégio! Sua escrita é repleta de carioquice da mais pura linhagem e traz um olhar extremamente crítico, dissonante do senso comum. Como podemos perceber no trecho de Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá:

Esse Rio é muito estrambótico. Estende-se pra aqui, pra ali; as partes não se unem bem, vivem tão segregadas que, por mais que aumente a população, nunca apresentará o aspecto de uma grande capital, movimentada densamente. (…)

Pense que toda a cidade deve ter sua fisionomia própria. Isso de todas se parecerem é gosto dos Estados Unidos; e Deus me livre que tal peste venha a pegar-nos. O Rio, meu caro Machado, é lógico com ele mesmo, como a sua baía o é com ela mesma, por ser um vale submerso. A baía é bela por isso; e o Rio o é também porque está de acordo com o local em que se assentou. Reflitamos um pouco.

Escolha seu guia preferido, calce um sapato confortável e bom passeio!