Por Laura Souza

Walt Disney estava sentado em uma poltrona macia na pérgula do Copacabana Palace quando lhe caiu nas mãos um exemplar da revista Fon Fon, publicada pelos Diários Associados. Numa das páginas havia uma charge com o traço fino de J. Carlos, cartunista que, por acaso, também rabiscava as primeiras versões de Mickey Mouse no Brasil. Impressionado com a qualidade do traço do desenhista, Disney o convidou para uma reunião rápida no hotel. O convite seguinte, para J. Carlos trabalhar em seus estúdios de Hollywood, foi recusado, mas – pelo menos é o que reza a lenda – o inventor do Pato Donald levou na bagagem de volta para casa o desenho de um papagaio feito pelo cartunista brasileiro. Nascia o Zé Carioca.

O papagaio malandro que vivia de pequenos trambiques no Rio de Janeiro foi a ponta de lança para a tal política de boa vizinhança. Aquela estabelecida pelo governo Franklin Roosevelt para arregimentar parceiros e aumentar o mercado para os produtos norte-americanos na América Latina. Depois da viagem ao Brasil, Disney fez coisas parecidas na Argentina, no Panamá e no México.

Na versão animada em que o papagaio esperto (leia, com sotaque carioca, ixpeeerto) chegou aos cinemas, o filme “Você já foi à Bahia?”, ele dividia a cena com Aurora Miranda, irmã de Carmen. Os trejeitos do personagem foram inspirados no músico José do Patrocínio Oliveira, violonista, banjista e cavaquinista autodidata, mais conhecido pelo pseudônimo Zé Carioca. Membro do Bando da Lua, Patrocínio se virava bem com o inglês que aprendera nos EUA. Detalhe: era de Jundiaí, interior paulista; de carioca, não tinha nada.

Nossas histórias e curiosidades sobre a década de 1940 na cidade são retiradas do livro "Anos 40: Quando o mundo, enfim, descobriu o Brasil", de Ricardo Amaral (Rara Cultural).

capa anos 40